quinta-feira, 5 de outubro de 2017

o comum

Eu não gosto do comum
o comum me tira do sério
o comum me desafia
me arrebenta

Eu tenho sangue de louco
Eu queimo
Eu vibro
Eu entro em ebulição

É como se o comum
fosse o contrário da ação
Fosse a morte
a estagnação

Que busco eu então?
Que fogo?
é tudo
ilusão.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

admirar

Eu gosto de admirar
cada pelo dourado de raio de sol
cada partícula do seu olho colorido

o formato do seu corpo
suas mãos pequenas
sua pele branca
o rosado de suas bochechas

gosto de admirar

Eu gosto de capturar com meu olhar
o brinco que se segura em sua orelha
sua voz adocicada
a simplicidade que da às coisas
e o modo como me agarra de madrugada

como uma criança que abraça o pai
como um amante que confia no amado

eu gosto de admirar
o gosto de te admirar

Eterno

num momento
eu te debulho na parede
no outro
sou um garotinho
cheio de receios e dúvidas
e então eu gozo em você
e você me acolhe
e deita a cabeça sobre o meu peito
e a gente ronca
No momento a devir
a gente casa
e você chora inseguro
e eu te envolvo
depois a gente ri
Eu entro em crise
você apazigua
e a gente briga
então dorme
acorda
toma banho
E no momento seguinte
a gente termina
e recomeça
e infinita.
Num dia tudo passa
no outro
eterno retorno.
Num dia eu sou feliz
no outro estou morto
Mãe
desculpe
não consigo ser aquilo que você deseja

Graças a Deus!

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Confiar na própria sensibilidade
é ouro
que se tira após tenebrosas visitas
a infernos além-limites

quinta-feira, 27 de abril de 2017

a natureza grandiosa de complexa simplicidade

no princípio
acreditei que eu era uma serpente
e rastejava
achava que o chão era o meu lugar

todo o olhar voltado pra fora
me dizia isso

pelas escolhas que eu fazia
pelos pensamentos que eu tinha
pela minha natureza
em diferenciação

eu era uma serpente

me convenci disso

mas as coisas foram mudando
a serpente foi trocando de pele
e entrando no casulo...
entrando no casulo?
que serpente é essa que entra no casulo?
sou então uma borboleta?

havia algo errado
com essa ideia que faziam e que eu fazia de mim
alguma peça não estava encaixando
por mais que eu tentava

então tudo desmoronou

como um parto
quando saiu do casulo
a serpente
que não era serpente
nem borboleta
transfigurou violentamente sua natureza
e o que rasgou a pele velha
atravessou os céus num rajado flamejante
gigante e encantado
senhor de si e de seu poder

ainda não consigo nomear-me
mas sei que não rastejo
e tampouco sou fácil de categorizar
poucos me percebem
e os que o fazem também possuem uma natureza grandiosa
de complexa simplicidade

sou como o dragão chinês
senhor da sabedoria e da boa sorte
fértil, guerreiro
capaz de nadar nas profundezas
e de ascender a alturas eternas

um ser em contínua transformação
e em constante lapidação
e de uma coisa me assenhoro
não sou nada do que julgam que sou
e nunca saberão
pois pouco sabem eles mesmos do que são feitos.


domingo, 12 de março de 2017

escapismo

Sumiços diários de consciência in loco
que pensa que é?
não pensa, na verdade,
desaparece
e se volta
volta impressionado com a volta

E somente no dia seguinte
o que antecede novo sumiço
novo escape se faz
e
ao voltar
não é mais o mesmo

que passa, pequeno garoto?
o que é que ta ruim aqui?
o presente, o passado ou o futuro?

sumo de novo