domingo, 30 de abril de 2017

Sérios Problemas

Algumas pessoas tem sérios problemas
Ou eu tenho sérios problemas
Ou todos nós temos sérios problemas
São sérios problemas
os sérios problemas

Indagar-se é um sério problema?
Ou nem pensar é um sério problema?
Quem não imagina tem sérios problemas
e nem imagina que tem sérios problemas

Como resolver os sérios problemas
tem que saber que tem sérios problemas
ou os problemas que são sérios problemas
vão se acumulando e virando maiores
e mais sérios
problemas

quinta-feira, 27 de abril de 2017

a natureza grandiosa de complexa simplicidade

no princípio
acreditei que eu era uma serpente
e rastejava
achava que o chão era o meu lugar

todo o olhar voltado pra fora
me dizia isso

pelas escolhas que eu fazia
pelos pensamentos que eu tinha
pela minha natureza
em diferenciação

eu era uma serpente

me convenci disso

mas as coisas foram mudando
a serpente foi trocando de pele
e entrando no casulo...
entrando no casulo?
que serpente é essa que entra no casulo?
sou então uma borboleta?

havia algo errado
com essa ideia que faziam e que eu fazia de mim
alguma peça não estava encaixando
por mais que eu tentava

então tudo desmoronou

como um parto
quando saiu do casulo
a serpente
que não era serpente
nem borboleta
transfigurou violentamente sua natureza
e o que rasgou a pele velha
atravessou os céus num rajado flamejante
gigante e encantado
senhor de si e de seu poder

ainda não consigo nomear-me
mas sei que não rastejo
e tampouco sou fácil de categorizar
poucos me percebem
e os que o fazem também possuem uma natureza grandiosa
de complexa simplicidade

sou como o dragão chinês
senhor da sabedoria e da boa sorte
fértil, guerreiro
capaz de nadar nas profundezas
e de ascender a alturas eternas

um ser em contínua transformação
e em constante lapidação
e de uma coisa me assenhoro
não sou nada do que julgam que sou
e nunca saberão
pois pouco sabem eles mesmos do que são feitos.


domingo, 12 de março de 2017

in loco?

Sumiços diários de consciência in loco
que pensa que é?
não pensa, na verdade,
desaparece
e se volta
volta impressionado com a volta

E somente no dia seguinte
o que antecede novo sumiço
novo escape se faz
e
ao voltar
não é mais o mesmo

que passa, pequeno garoto?
o que é que ta ruim aqui?
o presente, o passado ou o futuro?

sumo de novo

esporro

jorro palavras como quem goza
um gozo sem fim
de tanta vida concentrada no peito e que
agora
na Lua Cheia
transborda

pede vazão

eu desenho a vida abstrata
que me toca
que me toma
que me jorra
pra dentro
e por fora
por mim
e pra mim
pra quem vir

vida indiferenciada
tantos anos segregada
pede união

note que pede

pede jorro
pede gozo
pede existência

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Alta

Resultante de alegria, Marília saltou por sobre as vitórias, todas régias e caminhou iluminada pelo sol, admirada com a grandeza da vida e do viver.
Pôde escutar o desmoronamento de longe, o sorriso cortou-lhe a face, os olhos brilhavam e o coração pulsou.
Aparvalhada, chegou em frente ao portão, olhou para os lados e um porteiro sorridente lhe disse:
- Boa sorte.
Olhando o horizonte, os portões se abriram pra ela, que seguiu rumo a um mundo onde nada mais do que vivera existira, pelo menos nela.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

águas

Eu fiz o que eu pude e mesmo assim eu a vi deixando a minha casa, a mala na mão direita, a mão que ela come, e um chapéu panamá na esquerda, sua mão mais fraca. Contemplei as lâmpadas que eu quebrara minutos antes e meus olhos foram daí para os olhos de minha mulher... ex mulher... ex esposa! Ela não gostava que a chamasse de minha mulher porque ela dizia não ser minha propriedade. Sempre apreciei isso, eu adorava seu modo de enxergar o mundo, apreciava a consciência que tinha sobre as coisas, amava quando brigava comigo por divergências políticas. Por que mesmo essa mulher estava indo embora da minha casa? Eu não sabia, eu não fazia ideia. Eu também não tinha forças para tentar mantê-la, talvez por isso abaixei a cabeça, ou melhor, ela caiu do meu pescoço e senti minhas mãos desmaiarem também. Fiquei ali parado, no meio da sala, despencado como uma marionete, sem escutar nem o barulho dos carros na rua, e olha que comentávamos sobre isso todos os dias, isso e as motos de quinta-feira, que rasgavam as ruas às onze com roncos ensurdecedores. Quando me dei conta, uma lágrima saltou de dentro de mim direto para o caco de lâmpada aos meus pés, partindo-a em duas. Só então notei que ela havia voltado, pela periferia dos olhos, os dela fixos em mim. Não me movi. Ela jogou a mala e o chapéu no sofá, atravessou a sala e falou como quem comenta um dia chuvoso:
- É bom saber que você tem coração.
E sumiu escadaria acima.
Então levantei a cabeça como um gato assustado, tão repentinamente que ouvi uma vértebra estalar.
Em seguida, ela fechou a porta do banheiro e regou a minha vida.
you and me could stop this love drought